Por Pedro Lemos
Estou vivo, mãe, estou bem, hoje até comemos, deram-nos pão, mãe, há pessoas que nos olham desconfiadas, sim, tento não pensar nisso, hoje vi um amigo morrer ao meu lado, mas vamos ficar bem, não é? Mãe?
Tenho saudades tuas, mãe, passaram-se poucos dias, a vida agora vai ser melhor, eu sei. Tenho saudades. Pensei em ti quando pisei a última rocha: tu também a conheces, lembraste de como a víamos ao longe?
O sol a pôr-se nas nossas costas e dizias:
«Ali. A Europa».
Os olhos muito abertos, era quase um anúncio de uma felicidade que poderia ser a nossa. Nunca mo disseste, por medo de me perder, eu sei, sentia-o depois, quando me puxavas para perto de ti, mas agora já sou grande, mãe.
Estou aqui, depois da última rocha saltei para a água, meti-me a nadar, mãe, cada braçada pensava em tudo o que vamos conseguir.
A casa: nunca mais nos vai chover em casa, mãe, vamos ter uma sala daquelas grandes, um quarto para ti, outro para mim, um terceiro para quem precisar, nunca nos podemos esquecer de quem nos deu a mão, não é?
Vou ter tanto dinheiro que nunca mais vais ter de trabalhar, eu prometo, mãe. Para que vejas, ainda há pouco, passou aqui um senhor alto, falava a nossa língua e prometeu que me arranjava trabalho. Não só a mim, mas a todos.
Vai-nos pagar muito bem, mãe, até nos mostrou a casa onde vamos morar, com muitas camas, não vi nem ratos nem baratas, tinha um telhado, mãe, fiquei tão feliz. Ele diz que amanhã vem cá outra vez, que trata de tudo, que só nos quer ajudar.
Quando tenho fome, penso em ti. Ontem, o Omar morreu ao meu lado e eu ainda lhe disse:
«Pensa na tua mãe».
Já não foi a tempo.
Hoje deram-nos pão. O Omar teve azar. Tinham sido só mais umas horas; se ele ao menos tivesse pensado mais na mãe, mãe.
Tenho a certeza de que vamos ser muito felizes, estou na Europa, cheguei à Europa, mãe, e, afinal, olha, o senhor alto, o que fala a nossa língua, está já de regresso, estou a vê-lo a aproximar-se, vou com ele, mãe, vamos ser ricos, mãe, conseguimos, nunca mais vamos chorar, nem seremos esfomeados, vou com ele e voltamos a falar em breve, não é, mãe?
Mãe? Mãe?
Pedro Lemos
Poucas coisas me dão mais gozo na vida do que sentar-me frente a frente com uma pessoa, olhar-lhe nos olhos, escutá-la e ouvir a sua história para depois a verter num texto. Acho que isso diz tudo sobre como vejo e encaro isto do jornalismo, onde ando há quase 10 anos. Sou o Pedro.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
