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CIÊNCIA: Escavações arqueológicas revelam novos capítulos da presença romana no Alentejo

CIÊNCIA: Escavações arqueológicas revelam novos capítulos da presença romana no Alentejo

Duas campanhas arqueológicas coordenadas pela Universidade de Évora estão a trazer, este Verão, novos dados sobre a ocupação romana do Alentejo.

As escavações decorrem na Villa Romana de Santa Vitória do Ameixial, em Estremoz, e na Horta da Torre, em Fronteira, envolvendo estudantes portugueses e estrangeiros e recorrendo a novas tecnologias de investigação arqueológica.

Em Santa Vitória do Ameixial, classificada como Monumento Nacional, a campanha deste Verão tem particular importância: o local não era alvo de escavações documentadas desde 1916.

«O objetivo essencial passa por recuperar informação, de modo a conseguirmos uma leitura clara da presença humana antiga no local», explica André Carneiro, professor do Departamento de História da Universidade de Évora e coordenador dos trabalhos.

E os primeiros resultados trouxeram surpresas. Na zona onde terá existido a parte nobre da casa, os arqueólogos encontraram pavimentos e muros bem conservados e identificaram duas fases distintas de ocupação.

Até agora, as estruturas conhecidas eram associadas à grande residência dos séculos III/IV, mas as novas descobertas apontam para a possível existência de uma casa anterior, «talvez do século I d.C.», posteriormente reformulada.

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Assim, entre as descobertas mais relevantes, está a identificação de duas fases distintas de ocupação da villa. «A grande surpresa consistiu no facto de os muros revelarem duas fases de ocupação. Até ao momento, em Santa Vitória do Ameixial apenas se registavam estruturas consideradas como de um momento homogéneo – a grande residência de prestígio do século III/IV. Contudo, os muros identificados na campanha de 2026 revelam duas fases, pois um claramente sobrepõe-se a outro. Poderemos estar perante uma casa mais antiga, talvez do século I d.C., que mais tarde é reformulada para se construir um novo ambiente doméstico», explica o investigador. 

Outro dos aspetos inovadores da campanha foi a identificação de um fragmento arquitetónico de época paleocristão, correspondente a um período «para o qual nunca foi noticiada qualquer evidência» sublinha André Carneiro.

O facto dos mais notáveis elementos deste sítio arqueológico se encontrarem no Museu Nacional de Arqueologia é apontado como o maior desafio desta escavação, segundo o professor. 

A Universidade de Évora «tem um papel estruturante que não se limita à escavação em Santa Vitória do Ameixial: a colaboração insere-se num quadro mais amplo, pois a UÉ tem a co-direção dos trabalhos para a Carta Arqueológica de Estremoz. Ou seja, não estudamos o sítio isoladamente, mas todo o território envolvente. Além do mais, vários estudantes de Doutoramento em Arqueologia encontram-se a trabalhar sobre conteúdos de Santa Vitória do Ameixial», explica André Carneiro.

Entretanto, o projeto vai entrar no novo ciclo de quatro anos, que se prevê possa reforçar as componentes de escavação, conservação e restauro e ainda na valorização do local. O esforço financeiro e logístico do Município de Estremoz está garantido para este novo ciclo de trabalhos. 

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Em Fronteira, a Horta da Torre continua, por seu lado, a revelar a dimensão e sofisticação de uma villa romana que começou a ser escavada em 2012.

Até agora estão a descoberto pouco mais de 500 metros quadrados, mas estima-se que os vestígios se estendam por mais de 30 mil metros quadrados. «O que conhecemos é um fragmento do que existiu», salienta o investigador.

Entre os elementos mais singulares está uma sala de banquetes com um stibadium, estrutura onde os convidados se reclinavam, num espaço em que a água corria para criar efeitos decorativos.

Segundo André Carneiro, trata-se do «mais bem preservado exemplar conhecido no território português». As escavações estão também a revelar dois grandes peristilos e compartimentos em muito bom estado de conservação.

Uma antiga lixeira está também a permitir reconstruir o que chegava à mesa dos habitantes da villa. Os arqueólogos encontraram ossos de bovinos e animais de caça, mas também conchas de ostras e berbigão transportados do litoral para o interior alentejano, além de recipientes cerâmicos usados na iluminação e durante as refeições.

«Tratando-se de um sítio arqueológico excecional, é difícil isolar uma única descoberta», confessa o professor da UÉ, acrescentando que há «um imenso volume de dados que nos permite perceber como decorriam os banquetes em época romana, mas também sobre a ocupação do espaço em etapa pós-abandono – ou seja, após o seu uso opulento em época romana, o local é abandonado, mas depois frequentado por pastores em etapa pós-romana (século VI/VII)». 

«Por exemplo, na imponente sala do stibadium, onde a água fluía pelo pavimento, instala-se uma cabana que deixou buracos de poste no chão da sala, demonstrando uma forma totalmente distinta de ocupar e viver naquele ambiente».

«A Horta da Torre constitui um sítio ímpar para entendermos os processos de ocupação e reocupação nos fins do Império romano. Contudo, também merece destaque o estudo das soluções decorativas no sítio, pois temos muitos elementos que nos permitem entender como eram usados os mosaicos, estuques ou objectos que preenchiam os ambientes do local», garante.

A Horta da Torre conta este ano com 22 estudantes de sete nacionalidades e dez universidades portuguesas e estrangeiras.

Apesar da projeção internacional do projeto, André Carneiro aponta uma dificuldade: «trabalhar no interior do Alentejo sem financiamento é o maior desafio».

Ainda assim, sublinha, «trazemos o mundo para Fronteira». O trabalho realizado no sítio já deu origem a mais de 50 artigos em várias línguas e mais de 100 apresentações em quatro continentes.

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«A Universidade de Évora tem tido um papel como espaço de divulgação e promoção do projeto, permitindo estruturar redes colaborativas das quais beneficiam os nossos estudantes. Por exemplo, no atual ciclo de trabalhos, temos seis estudantes de formação avançada a trabalharem conteúdos do concelho de Fronteira. Um dos alunos está em Groningen a desenvolver o seu doutoramento, já com três artigos em publicações Q1 e Q2 a difundirem conteúdos sobre este território. Trata-se de uma marca de internacionalização fundamental», destaca o professor.

Apesar do sítio arqueológico «estar localizado em propriedade privada e, nesse sentido, ainda não terem sido tomadas medidas para a valorização», o local «é hoje procurado por muito público turístico». 

As escavações procuram também deixar marcas para além da investigação. Em Santa Vitória do Ameixial, está prevista a criação, pelo Município de Estremoz, de um centro interpretativo e circuito de visita, que poderá contribuir para atrair visitantes e gerar impacto económico local.

Já em Fronteira, o projeto tem promovido iniciativas com a comunidade e agentes económicos, estando previsto até o lançamento de biscoitos inspirados em receitas da época romana, produzidos em colaboração com uma doçaria local.

«O maior desafio que temos na Arqueologia consiste em transformar o conhecimento em discurso para o público em geral», conclui André Carneiro.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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