Calor, ozono, fumo e poeiras tornam poluição cada vez mais global
AMBIENTE
Por Elisabete Rodrigues
Quase 40% da população mundial esteve exposta, nos primeiros oito meses de 2026, a níveis perigosos de ozono junto à superfície, revela uma nova análise do Copernicus.Na Europa, sucessivas ondas de calor agravaram este tipo de poluição e metade da população esteve sujeita a níveis classificados entre «Poor» e «Extremely Poor». Mais a sul, as poeiras do Saara voltaram a mostrar que a poluição não conhece fronteiras: atravessaram o Atlântico, atingiram as Canárias e Cabo Verde e chegaram às Caraíbas.
O retrato é traçado pelo Atmosphere Watch, uma análise global divulgada pelo Copernicus Atmosphere Monitoring Service (CAMS), serviço implementado pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) em nome da Comissão Europeia.
O estudo acompanha os primeiros oito meses de 2026 e concentra-se em três grandes formas de poluição capazes de viajar a grandes distâncias: ozono troposférico, fumo de incêndios e poeiras dos desertos. Para isso, o CAMS combina milhões de observações provenientes de satélites, redes de estações terrestres, aeronaves e outras fontes com os seus modelos globais de previsão da poluição atmosférica.
A conclusão transversal é clara: aquilo que é emitido ou produzido num determinado lugar pode afetar a qualidade do ar a milhares de quilómetros de distância.
«A poluição atmosférica não conhece fronteiras. O fumo dos incêndios, o ozono e as poeiras podem viajar milhares de quilómetros, afetando comunidades muito longe da sua origem», alerta Florian Pappenberger, diretor-geral do ECMWF.
Para o responsável, os resultados demonstram também que «as alterações climáticas, a qualidade do ar e a saúde pública são desafios profundamente interligados que exigem uma ação global coordenada».
Europa: calor agrava problema do ozono
A Europa surge como a segunda região do mundo mais afetada pela poluição por ozono, atrás da Ásia e à frente da América do Norte.
Apesar dos progressos alcançados nas últimas décadas na redução de vários poluentes — que o Copernicus associa, entre outros fatores, à legislação europeia sobre qualidade do ar —, o ozono continua a ser um problema particularmente difícil de controlar.
Em 2026, 50% da população europeia esteve exposta a níveis de ozono classificados como «Poor», «Very Poor» ou «Extremely Poor».
Uma das razões está no próprio verão europeu. As sucessivas ondas de calor registadas entre junho e agosto criaram condições favoráveis à formação de ozono a partir de poluentes precursores emitidos localmente, contribuindo para ultrapassagens dos valores estabelecidos para proteção da saúde.
Ao contrário de outros poluentes, o ozono troposférico não é emitido diretamente por automóveis, fábricas ou incêndios. Forma-se na atmosfera quando substâncias precursoras — entre elas os óxidos de azoto e compostos orgânicos voláteis, provenientes do tráfego, indústria, solventes domésticos, vegetação e incêndios — reagem sob a ação da luz solar e em condições meteorológicas favoráveis.
Por isso, calor intenso, radiação solar e poluição podem formar uma combinação particularmente problemática.
É aquilo que o relatório designa como uma espécie de penalização climática do ozono: as alterações climáticas podem favorecer condições para a sua formação e o próprio ozono é também um gás com efeito de estufa, criando um mecanismo de retroalimentação.
«Mega incêndios» europeus levaram fumo para longe
Mas o ozono não foi o único problema enfrentado pela Europa.
O Copernicus destaca os grandes incêndios ocorridos em França, Espanha e Bélgica, que produziram intenso transporte de fumo e afetaram a qualidade do ar a milhares de quilómetros das áreas ardidas.
A Europa recebeu também poluição produzida do outro lado do Atlântico. Parte do fumo dos incêndios florestais da América do Norte atravessou o oceano e chegou ao continente europeu, contribuindo para aumentar as concentrações de PM2.5, partículas finas com menos de 2,5 micrómetros.
Esta capacidade de transporte atmosférico torna particularmente importante saber não apenas o que está a ser emitido localmente, mas também aquilo que chega de regiões distantes.
Ian Marnane, responsável pela área de Ambiente e Saúde da Agência Europeia do Ambiente, considera que a combinação de uma rede robusta de monitorização terrestre com satélites e previsões do transporte de poluentes a longa distância «é essencial para apoiar respostas nacionais e regionais eficazes à poluição atmosférica na Europa».
Os impactos ultrapassam largamente o incómodo provocado por céus enevoados ou pela perda de visibilidade.
Dorota Jarosińska, responsável de programa no Centro Europeu para o Ambiente, Clima e Saúde da Organização Mundial da Saúde, lembra que «a poluição atmosférica é um dos maiores riscos ambientais para a saúde na Europa».
Está associada, acrescenta, «a doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, cancro do pulmão e doenças respiratórias».
A responsável da OMS destaca ainda a importância dos dados do CAMS para preencher as lacunas existentes entre estações de monitorização, sobretudo nas regiões onde estas são mais escassas, permitindo melhorar sistemas de alerta de saúde pública e avaliações de risco.
Poeira do Saara muito para além do Norte de África
O Norte de África é outra das regiões particularmente relevantes no retrato traçado pelo Copernicus, devido sobretudo ao transporte de poeiras do Saara.
Durante 2026, o CAMS acompanhou repetidos episódios em que grandes quantidades de partículas minerais saíram do continente africano e percorreram enormes distâncias.
Foram observados episódios de transporte de poeiras e fumo da África Ocidental para o Atlântico Norte, atingindo Cabo Verde e as Ilhas Canárias, onde provocaram condições de atmosfera enevoada e degradação da qualidade do ar.
Mas a viagem não ficou por aí: houve igualmente poeiras do Saara a atravessar o Atlântico em direção às Caraíbas.
O fenómeno é um dos exemplos utilizados pelo Copernicus para demonstrar por que razão a qualidade do ar de uma determinada região não pode ser analisada exclusivamente através das suas próprias emissões.
Os modelos atmosféricos do CAMS seguem mais de 50 espécies químicas, permitindo acompanhar o movimento e a interação entre poeiras do deserto, fumo de incêndios, ozono e respetivos precursores através de países, regiões e oceanos.
No conjunto de África, as emissões sazonais provenientes da queima de biomassa nas regiões tropicais do Norte e do Sul têm vindo a diminuir de forma consistente nas últimas duas décadas.
Isso não significa, porém, que tenham deixado de constituir um problema. Segundo o Atmosphere Watch, continuam a gerar poluição generalizada por fumo, à qual se soma a forte influência das poeiras do Saara na qualidade do ar.
No caso do ozono, a situação africana é globalmente menos grave do que na Europa, Ásia ou América do Norte. Cerca de 56% da população africana esteve exposta a níveis considerados «Good» ou «Fair», enquanto 8% enfrentou níveis classificados como «Extremely Poor».

Só 5% da população mundial respirou ar dentro da orientação da OMS para ozono
À escala mundial, os resultados relativos ao ozono são particularmente expressivos.
Segundo a análise, quase 40% da população mundial foi exposta a níveis perigosos de ozono troposférico, num ano em que temperaturas extremas e poluição de origem humana se combinaram em diferentes regiões.
Mais impressionante ainda: apenas 5% da população mundial esteve exposta a níveis classificados como «Good», dentro das orientações da Organização Mundial da Saúde.
Laurence Rouil, diretora do Copernicus Atmosphere Monitoring Service, considera que estes resultados mostram «como a nossa atmosfera, clima, saúde e meios de subsistência estão realmente interligados».
A poluição e a mudança do clima, acrescenta, influenciam «a química do ar que respiramos, determinam a saúde dos nossos ecossistemas e chegam mesmo a condicionar a nossa capacidade de produzir alimentos».
O ozono junto à superfície pode prejudicar não apenas a saúde humana, mas também ecossistemas e produtividade agrícola.
América do Sul e Oceânia com melhores indicadores de ozono
A América do Sul apresentou uma situação bastante menos severa: 31% da população esteve exposta a níveis «Good» de ozono e 50% a níveis «Fair», embora o Rio de Janeiro figure entre as cidades com episódios de exposição «Extremely Poor».
As emissões de incêndios florestais foram também inferiores às registadas em muitos anos recentes.
A Oceânia surge como a região com melhores resultados: 100% da população esteve dentro das categorias «Good» e «Fair» de exposição ao ozono nos primeiros oito meses de 2026. Ainda assim, poeiras e fumo de incêndios permaneceram entre os principais problemas de qualidade do ar.

Ásia é a região mais castigada pelo ozono
A situação mais grave encontra-se na Ásia, onde a combinação entre emissões industriais, transportes e fontes naturais contribuiu para manter concentrações elevadas.
Cerca de 60% da população asiática esteve exposta em 2026 a níveis «Extremely Poor» de ozono. Quando se juntam as categorias «Poor» e «Very Poor», a proporção sobe para 90% da população do continente.
Nas regiões industrializadas e densamente povoadas, o problema do ozono foi acompanhado por concentrações significativas de PM2.5, dióxido de azoto (NO2) e dióxido de enxofre (SO2).
No Sudeste Asiático, os incêndios sazonais provocaram ainda episódios de poluição transfronteiriça, nomeadamente na Tailândia e Laos. Em julho, os incêndios intensificaram-se também na Indonésia, particularmente no Bornéu e nas províncias de Kalimantan Ocidental e Central, expondo milhões de pessoas a ar perigoso até meados de agosto.
Incêndios do Canadá mandaram fumo para Europa e Ártico
Na América do Norte, mais de dois terços da população esteve exposta a níveis de ozono entre «Poor» e «Extremely Poor».
As concentrações foram particularmente elevadas nas áreas densamente povoadas das costas leste e oeste dos Estados Unidos e em grandes cidades da América Central, surgindo a Cidade do México entre as mais afetadas por níveis «Extremely Poor».
Os incêndios no Canadá e oeste dos Estados Unidos agravaram o problema. Grandes plumas de fumo percorreram milhares de quilómetros, alcançando o Oceano Ártico e a Gronelândia, atravessando também o Atlântico até à Europa.

Uma atmosfera sem fronteiras
O retrato global do Copernicus acaba por convergir numa ideia: incêndios, calor extremo, emissões humanas e poeiras naturais não produzem impactos apenas no local onde acontecem.
Mesmo num contexto em que as emissões globais totais provenientes da queima de biomassa têm diminuído nas últimas décadas, a exposição ao fumo dos incêndios está a aumentar, em parte porque ocorrem fogos mais extremos perto de áreas habitadas.
«O fumo dos incêndios, as emissões da queima de biomassa e as plumas de poeira do Saara podem viajar milhares de quilómetros e afetar comunidades muito longe do local onde tiveram origem», sublinha Laurence Rouil.
Para a responsável do CAMS, isso reforça a necessidade de uma atuação global sobre a qualidade do ar «em paralelo com a ação climática».
É também essa capacidade de acompanhar uma atmosfera que não reconhece fronteiras políticas que o Copernicus procura demonstrar no Atmosphere Watch: o fumo de um incêndio canadiano pode chegar à Europa, as poeiras do Norte de África podem atravessar o Atlântico e uma onda de calor europeia pode transformar poluentes já existentes numa ameaça adicional à saúde.
Em 2026, essas ligações tornaram-se particularmente visíveis — e, segundo o novo retrato do CAMS, calor, incêndios, poluição e alterações climáticas estão cada vez mais difíceis de analisar em separado.
Elisabete Rodrigues
Nasci em Lisboa, mas sou algarvia desde tenra idade. Foi em Lisboa que estudei Comunicação Social e foi também lá que iniciei a minha carreira, em 1985, n'«O Jornal». Passei pelas agências Notícias de Portugal e Lusa, e pelos jornais Independente, Diário de Notícias e Barlavento. Foi daí que saí para, com dois colegas, fundar, em setembro de 2011, o jornal online Sul Informação, do qual sou diretora. Já ganhei vários prémios de jornalismo, a maioria dos quais individualmente, mas também em equipa. Tenho ainda dado aulas a futuros jornalistas (e não só). Nos meus (poucos) tempos livres, dedico-me à fotografia, às caminhadas, à leitura ou simplesmente a não fazer nada, sendo capaz de estar meia hora a olhar para as folhas de uma árvore ou as nuvens do céu. Infelizmente, tenho muito pouco tempo para nada fazer...
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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