Arquitectura, anuncia-se um mundo novo, mas será ele admirável?
OPINIÃO
Por Miguel Caetano
Nas últimas semanas, dois debates cruzaram-se de forma quase silenciosa. Um deles abriu-se quando Bento Aires, da Porto Business School, apresentou o Barómetro da Habitação em entrevista ao Expresso e defendeu que os instrumentos de gestão do território devem enquadrar um desenho urbano muito mais standardizado e não tanto de desenho livre, acrescentando que toda a cadeia de pensamento tem de ser reequacionada.
O outro passa despercebido todos os anos por esta altura, quando centenas de jovens iniciam cursos de Arquitectura acreditando que a profissão para a qual se preparam continuará a oferecer condições de exercício compatíveis com a responsabilidade que a sociedade lhes exige. Estes dois temas não são independentes.
Escrevo isto sem queixa pessoal a apresentar, e beneficiaria como qualquer outro das mudanças que proponho. Escrevo-o porque o que está em causa não é o meu caso, é o de quem chega agora a uma profissão que o Estado forma, regula e de que também é comprador.
Aviso desde já que este artigo é longo, porém o tema também o é. Tudo o que aqui se afirma está demonstrado com a sua origem identificada, e demonstrar demora mais do que opinar. Não é por isso um artigo para ler de forma sôfrega. Quem quiser apenas a conclusão encontra-a nas últimas linhas, e quem quiser saber se ela se sustenta terá de atravessar o meio.
Mal começámos a apontar caminhos para retirar a arquitectura do imbróglio burocrático que minou o gozo da profissão, e com ele o tempo de pensar que a arquitectura exige, já nos vemos confrontados com uma realidade inteiramente nova. E o que a arquitectura é, convém dizê-lo antes de prosseguir, não é o desenho de um objecto. É o processo de decidir, antes de construir, como um lugar vai ser vivido, e de traduzir depois essa decisão em desenho que alguém possa executar. Vale para a casa, vale para o equipamento e vale para o espaço público, e é dessa decisão, muito mais do que do traço, que depende a vida de quem lá vai estar.
Quanto à realidade nova, vem impulsionada pela escassez de habitação, pela escassez de mão de obra, pelo custo da energia, pelo custo dos materiais e por uma desburocratização ainda incipiente de que ninguém consegue antever os resultados práticos.
A escassez de habitação não caiu do céu. É o fruto de décadas de desinvestimento e de um crescendo de restrições ao território disponível para urbanizar, cada vez mais classificado e cada vez mais escasso. É o fruto de uma regulamentação que tudo quis controlar e do pântano burocrático a que o sector foi acometido ao longo de trinta anos. Os estudos mais recentes não desmentem nada disto, e são unânimes quanto àquilo que hoje trava a oferta.
O primeiro barómetro da habitação do Real Estate Futures Center da Porto Business School, apresentado em Julho, mostra os especialistas do sector a pontuarem a escassez de oferta em 4,50 numa escala de cinco, a morosidade dos licenciamentos em 4,45, os custos de construção em 4,17 e a baixa previsibilidade urbanística em 4,11.
Elegem a simplificação efectiva do licenciamento como a medida mais eficaz a curto prazo, com 4,17, e colocam no topo das reformas estruturais a articulação entre Estado, municípios e sector privado, com 4,26, surgindo o aumento da produtividade e a industrialização da construção logo atrás, com 4,07. No plano tecnológico apontam a construção modular e industrializada como a inovação de maior potencial, seguida da construção fora do local, do BIM e da inteligência artificial aplicada ao projecto e à verificação dos processos.
Não tenho objecção de princípio a nada disto, e quem exerce sabe melhor do que ninguém quanto tempo se perde em procedimento e quanto desperdício existe em obra. Tenho objecção quanto àquilo que não vem escrito em nenhum dos estudos. Nenhum deles diz quem projecta, com que meios, por que preço e com que tempo para decidir antes de desenhar.

A conta que ninguém faz
Vale a pena pôr os números em cima da mesa, porque raramente aparecem juntos e porque, aparecendo juntos, dizem tudo. Em 2025 transaccionaram-se em Portugal 169.812 habitações, num total de 41,2 mil milhões de euros. É o valor mais alto desde que o INE iniciou a série em 2009, e mais 21,7% do que no ano anterior.
O preço mediano fixou-se em 2.076 euros por metro quadrado, uma subida de 16,8% em doze meses. No primeiro trimestre de 2026 a mediana nacional ia já em 2.337 euros, no Algarve em 3.352 e no município de Lisboa em 5.292 euros. São estes os números que toda a gente cita, e são também os únicos que o país conhece bem. Falta saber como se repartem por dentro.
Tome-se então uma moradia corrente de cerca de 360 metros quadrados de área bruta, com cave para estacionamento, piso térreo e piso superior, aquilo a que chamaríamos um T3 robusto ou um T4 contido. Aos preços correntes de mercado no Algarve, o projecto de arquitectura, apenas o de arquitectura e sem qualquer especialidade, ronda hoje os 9.000 a 12.500 euros. São 25 a 35 euros por metro quadrado desenhado.
E nesse valor cabem a concepção, o licenciamento, o projecto de execução e a assistência técnica daquilo em que uma família irá viver as próximas quatro décadas. Trata-se do caso simples, sem complexidade de programa, sem exigência patrimonial e sem terreno difícil, que são precisamente os casos em que o projecto custa muito mais e demora muito mais. O exemplo é do Algarve, onde a construção é cara e a venda é das mais altas do país, o que torna a desproporção que se segue ainda mais difícil de explicar.
Essa moradia, para existir, tem de ser construída. O custo real da construção hoje no Algarve, entendido como o preço chave na mão que um empreiteiro apresenta a um particular tratado directamente, e já com a margem do empreiteiro lá dentro, situa-se entre 2.000 e 2.800 euros por metro quadrado, para acabamentos correntes a médio-altos, sem terreno, sem projecto, sem taxas e sem IVA. Descontando a cave, que custa consideravelmente menos por metro quadrado do que a área habitável, a empreitada desta casa fica entre 630 e 850 mil euros.
É contra este número, e não contra o preço de venda, que os honorários do arquitecto devem ser lidos. Os tais 9.000 a 12.500 euros sobre uma empreitada de 630 a 850 mil representam entre 1,1% e 2,0% do custo da obra, e são arquitectura e mais nada.
Convém aqui ser rigoroso, porque a comparação fácil é também a comparação errada. As antigas Instruções para o Cálculo dos Honorários, que vigoraram até 2008, fixavam 4,35% na média das categorias correntes, mas fixavam-nos para o projecto completo, com todas as especialidades incluídas. Ora a Secção Regional Sul da Ordem estabelece que a arquitectura representa 40 a 60 por cento da totalidade dos honorários de um projecto, consoante a complexidade e a dimensão. A parte que cabia então ao arquitecto situava-se, portanto, entre 1,74% e 2,61% do custo da obra. É esse, e apenas esse, o número a confrontar com os 1,1% a 2,0% de hoje. Não é um desabamento espectacular, é uma erosão lenta, e é tanto mais grave quanto no mesmo período se multiplicaram as especialidades exigidas, os regulamentos a cumprir e a responsabilidade de quem assina.
Volte-se à casa, porque falta contar o outro lado da conta. Numa empreitada adjudicada directamente por um particular, sem concurso e sem pressão concorrencial, a margem que o construtor incorpora no preço situa-se correntemente entre 15% e 25%. A literatura do sector considera saudável uma margem bruta sobre custos directos entre 20% e 35%. A 20%, o construtor leva desta obra entre 126 e 170 mil euros, não de facturação mas de margem. São dez a dezanove vezes a totalidade daquilo que recebeu quem concebeu a casa, quem a licenciou, quem assinou o termo de responsabilidade e quem acompanhou a obra do primeiro ao último dia.
E mesmo que se descesse ao chão absoluto, à margem operacional média que o Banco de Portugal apura para todo o sector da construção, pouco acima de 10% e já depois de descontada toda a estrutura das empresas, seriam ainda 63 a 85 mil euros. Cinco a nove vezes os honorários do autor. E que se entenda bem, porque a margem do construtor é inteiramente legítima, refere-se ao risco de capital, pessoas ao serviço, garantias prestadas e a hipótese real de perder dinheiro, coisa que o autor do projecto não arrisca. O ponto não é a margem existir. É a distância que passou a separar quem executa de quem concebe, e o facto de essa distância já não ter relação nenhuma com o peso de cada um naquilo que fica de pé.
E se, terminada, a moradia for levada ao mercado, o que aos preços medianos que o INE hoje regista no Algarve significa algo acima de 800 mil euros, a comissão de mediação a 5% acrescidos de IVA ronda os 49 mil euros. São quatro a cinco vezes os honorários do autor, por um trabalho que não assume responsabilidade técnica sobre aquilo que ali foi construído.
A esta altura há uma objecção óbvia, e mais vale enfrentá-la do que esperar por ela. Se os honorários são tão baixos, então cobre-se mais. A resposta é que o mercado onde esse preço se forma não corrige, corrige ao contrário. Portugal tem dois arquitectos por mil habitantes, o dobro da média europeia, todos a disputar a mesma encomenda escassa.
Desde 2008 não existe referencial nenhum, nem sequer indicativo, a que um cliente possa comparar uma proposta. E quem compra um projecto não tem, nem tem por que ter, forma de avaliar a qualidade daquilo que está a comprar antes de o ver construído, pelo que compara o único número que entende, que é o preço. Não é uma impressão minha, nem coisa que se defenda em causa própria.
Em fóruns abertos, onde ninguém está a fazer política de classe, lê-se um arquitecto em exercício a admitir que cobraria mais se pudesse mas que o preço de mercado não deixa, e a dizer que pratica o mesmo valor para moradias até duzentos e cinquenta metros quadrados. Dá cerca de vinte e dois euros por metro quadrado, abaixo do intervalo que aqui se toma por referência.
E as páginas do sector publicam intervalos entre vinte e cinco e noventa euros por metro quadrado, o que mostra que o intervalo usado neste exemplo é dos mais baixos que se publicam, e que o praticado na realidade é muitas vezes ainda inferior. Junte-se isto e obtém-se um leilão descendente, em que quem cobra aquilo que o seu trabalho vale, acaba por perder o trabalho. Não é falta de coragem para cobrar. É aritmética.
Note-se ainda que, de tudo o que acabei de contar, os honorários do arquitecto são a única parcela que o país não regista em lado nenhum. Não há em Portugal um único estudo, indicador ou série estatística sobre honorários de arquitectura em encomenda privada, e muito menos desagregado das especialidades.
A razão é conhecida. Desde 2008 é interdita qualquer regra de cálculo de honorários, e uma profissão à qual se proíbe ter referenciais acaba naturalmente por deixar de ter dados. Sabemos ao cêntimo quanto custou cada casa vendida no país e não sabemos quanto se paga a quem as desenha.

O Estado que não cumpre o seu próprio preço
Do lado público, ao contrário, os dados existem, e existem porque o Estado é obrigado a publicar aquilo que o mercado privado esconde. Temos assim o único retrato fiável do que vale hoje um projecto em Portugal, e ele é pior do que o do mercado. O Relatório sobre Honorários na Encomenda Pública da Ordem dos Arquitectos analisou 469 concursos públicos lançados entre Julho de 2023 e Junho de 2024 e, dentro desses, 98 contratos correspondentes a 386,6 milhões de euros de empreitada.
Os resultados dizem mais sobre as regras do que sobre quem as aplica. E convém dizê-lo, porque quem lança um concurso numa autarquia não escolhe o preço mais baixo por gosto. Escolhe-o porque o critério assim o obriga, e porque adjudicar acima dele expõe a recurso do concorrente preterido e a dúvidas no visto. Os serviços de arquitectura e engenharia foram a concurso com um preço-base médio de 3,31% do valor da obra e foram adjudicados por 1,99%. Nos municípios e empresas municipais desceram para 1,75%, e para 0,62% em 8% dos contratos, que ainda assim representavam 91 milhões de euros de obra.
Os contratos foram celebrados, em média, por 60% do preço-base que o próprio Estado havia fixado como adequado, e em 30% dos casos por menos de metade. Dos 386 milhões previstos para empreitadas, apenas 7,7 milhões chegaram às equipas projectistas.
Com as antigas Instruções teriam sido 16,8 milhões, com as referências espanholas 16,4 milhões e com o regime alemão 35,5 milhões. Em percentagem do valor das obras, e sempre na mesma base de arquitectura mais engenharia, isso corresponde a 4,35% nas antigas Instruções, 4,24% em Espanha e 9,19% na Alemanha, contra os nossos 1,99%.
Estamos portanto a pagar pelo projecto público menos de metade do que se pagava há dezasseis anos, e menos de um quarto do que se paga hoje na Alemanha. E fazemo-lo num período em que o número de especialidades exigidas aumentou, em que se tornou obrigatório o BIM, em que chegaram a térmica, a acústica e a vulnerabilidade sísmica, e em que o custo da construção por metro quadrado disparou.
Apliquemos por fim a estes 1,99% a mesma proporção de há pouco. À arquitectura caberão, dentro deles, entre 0,80% e 1,19% do custo da obra. Repare-se no que isto significa. O Estado paga ao arquitecto menos do que lhe paga o mercado privado que tanto se acusa de o espremer. Quem devia fixar o padrão é precisamente quem o pratica pior, e fá-lo depois de ter escrito, no seu próprio anúncio de concurso, que o valor adequado seria 3,31%.
Um preço que se afunda durante dezasseis anos acaba por chegar a quem o pratica. O resultado está à vista nos rendimentos. Segundo o Conselho dos Arquitectos da Europa, o ganho médio anual bruto de um arquitecto a tempo inteiro em Portugal é de 16.382 euros, 43,7% da média europeia de 37.461. Abaixo de nós está apenas a Roménia. Na Administração Pública são 19.340 euros contra uma média europeia de 39.037. Não é um dado sobre os arquitectos apenas, é um dado sobre os quadros técnicos que os municípios conseguem reter, e sobre a capacidade com que ficam para preparar e fiscalizar aquilo que mandam construir.
Tudo isto num país que tem dois arquitectos por mil habitantes, o dobro da média europeia, e que diplomou em média 860 estudantes de arquitectura por ano nas últimas duas décadas. Em 2014 o número de suspensões de inscrição na Ordem, 1.593, superou largamente o das admissões, 790. Não é uma crise de talento, é uma crise de destino para o talento.
Esta reflexão ganha particular actualidade numa altura em que mais uma geração inicia os cursos de Arquitectura. O Estado regula a formação, define o enquadramento legal da profissão e é, através da contratação pública, um dos seus principais clientes. Não basta, por isso, discutir quantos arquitectos o país forma. É igualmente legítimo perguntar se as condições em que essa profissão é chamada a exercer-se acompanham as exigências, a responsabilidade e o interesse público que o próprio Estado lhe atribui.
Vale a pena olhar para quem chegou primeiro a este ponto. A Itália é o país com mais arquitectos da Europa, perto de 155 mil, cerca de um quarto de todos os arquitectos europeus, com 2,5 a 2,6 por mil habitantes. Em 2000 eram 1,6. E convém desfazer o equívoco fácil, porque não foi por falta de travão. A Itália limita por lei o acesso ao curso desde 1999, com número de vagas fixado anualmente pelo ministério e prova nacional de admissão, regime que continua em vigor.
Ainda assim, o número quase duplicou em relação à população e os rendimentos caíram para o terço inferior da Europa. O Cresme, o principal centro italiano de estudos da economia da construção, calculou que cada arquitecto italiano dispunha de um mercado de cerca de 105 mil euros por ano, o segundo mais baixo do continente, acima apenas da Grécia, e um terço do que cabia a um arquitecto alemão.
Segundo o ACE Sector Study 2024, Portugal vem logo a seguir na densidade, com dois arquitectos por mil habitantes. E já ultrapassou a Itália naquilo em que não convinha ultrapassar ninguém, porque um arquitecto italiano ganha em média 27.264 euros por ano e um português 16.382, dois terços abaixo.
Ou seja, chegámos ao resultado italiano sem termos a encomenda italiana, e sem nunca termos posto a questão. E a lição italiana não é a que parece à primeira vista. Se travar o acesso não chegou, é porque o problema não está apenas em quantos entram, está em quanta encomenda existe para eles. O Cresme mediu-o bem quando calculou o mercado disponível por cabeça.
É uma conta com numerador e denominador, e nós passámos trinta anos a discutir apenas o denominador. As duas coisas agravam-se uma à outra, porque o excesso de profissionais empurra os preços para baixo e os preços em baixo tornam inútil qualquer regra que se escreva, já que ninguém a pode cumprir sem perder o trabalho para quem a não cumpre. A pergunta incómoda é portanto esta. Que caminho pretende um país que forma oitocentos e sessenta arquitectos por ano, num território frágil e com um património construído que pede cuidado e não volume, sem nunca ter decidido para que trabalho os quer?
E ao desequilíbrio da remuneração veio juntar-se, nos últimos anos, um desequilíbrio de risco. O Simplex urbanístico transferiu para o projectista, através do termo de responsabilidade, do deferimento tácito e da isenção de controlo prévio, boa parte do risco que antes era partilhado com a entidade licenciadora.
O bastonário da Ordem falou à época de uma responsabilização muito excessiva e de uma desproporcionalidade evidente entre a responsabilização e as consequências. Simplificou-se o procedimento sem reequilibrar a relação, e passámos todos a assinar mais, a garantir mais e a arriscar mais, pelo mesmo ou por menos.

O que se perde quando se desenha mal
Convém lembrar, porque se esquece depressa, por que razão isto deveria importar a quem não é arquitecto. A resposta não está na profissão, está naquilo que ela produziu. O urbanismo moderno nasceu de uma emergência de saúde pública, e as redes de saneamento, a largura das ruas, a insolação mínima dos fogos e a separação entre água limpa e água suja são conquistas de desenho e não de medicina. Resolvido o essencial da salubridade, o desenho passou a ocupar-se da dignidade.
A habitação social vienense do início do século XX, as cidades-jardim, a reconstrução europeia do pós-guerra, o SAAL e a Malagueira de Siza em Évora são todos casos em que alguém decidiu que dar casa a muita gente e dar casa depressa não era incompatível com dar casa com dignidade. A prova está em que continuamos a aprender com eles cem anos depois. E aquilo que então se intuiu está hoje medido, porque a habitação é um dos determinantes sociais da saúde mais bem documentados.
As revisões sistemáticas são consistentes a ligar a sobrelotação, o frio, a humidade, a má ventilação e a má concepção do espaço a piores resultados de saúde física e mental, e a demonstrar que intervir na qualidade da habitação melhora esses resultados de forma mensurável.
Um edifício mal concebido não é, portanto, um problema estético. É um custo diferido em energia, em manutenção, em saúde e em coesão social, que alguém há de pagar sempre, normalmente o Estado e normalmente trinta anos mais tarde. E isto começa muito antes, na escala de quem manda construir uma única casa, porque aquilo que se poupa em projecto costuma reaparecer em obra, sob a forma de erros, de decisões tomadas à pressa no estaleiro e de trabalhos a mais.
A Ordem escreve-o no seu relatório, ao notar que comprimir o preço do projecto força a simplificação das soluções e a descida da qualidade dos materiais, produzindo edifícios menos eficientes e menos duradouros, com custos de manutenção mais altos e mais reparações a curto e médio prazo. É parte interessada, e não escondo que o sou também, mas o mecanismo dispensa autoridade.
Na prática, um projecto remunerado em torno de 1% dificilmente permite o mesmo tempo de estudo, comparação de alternativas, verificação cruzada e maturação que uma remuneração adequada. O que não se paga não se faz, e o que não se faz aparece mais tarde nos trabalhos a mais da obra, na factura da energia, na da manutenção e no desconforto de quem ali vive.
Industrializar não é standardizar
A receita que agora se aponta para produzir mais casas mais depressa assenta na industrialização da construção. E é nela que reside a confusão que verdadeiramente me preocupa. Industrializar a construção é uma questão de processo. Passa por pré-fabricar em ambiente controlado, reduzir desperdício, encurtar prazos e ganhar previsibilidade, e nada disso obriga a standardizar o desenho.
Nos Países Baixos a capacidade instalada de construção industrializada prevê atingir as oitenta mil casas por ano até 2028, e Espanha lançou em 2025 um programa nacional de mil e trezentos milhões de euros para industrializar a habitação.
Em nenhum dos dois casos se decretou o fim do projecto. Jean Prouvé, as Case Study Houses e boa parte da melhor habitação nórdica são pré-fabricação ao serviço do projecto e não em substituição dele.
O risco português é outro. É o de usarmos a industrialização como pretexto para dispensar a concepção, porque é aí, e apenas aí, que a poupança é imediata e visível no orçamento. Um projecto que já custa 1,99% de uma obra é praticamente gratuito, e a tentação seguinte é torná-lo genuinamente dispensável, substituindo-o por catálogo. Um país que compra catálogo durante vinte anos acorda, ao fim desses vinte anos, com um território que não consegue desfazer. A industrialização pode reduzir custos de produção. Nunca reduzirá o custo de uma má decisão urbana.

O que peço
Nada disto se resolve com nostalgia, nem com a defesa do estatuto de quem desenha. Não peço protecção corporativa, peço coerência. E convém admitir desde já que nenhuma das três coisas que se seguem chega, sozinha, para inverter o que descrevi. Peço, ainda assim, porque disciplinam quem compra, e guardo para o fim aquilo que verdadeiramente falta.
Peço, em primeiro lugar, um referencial público e transparente para o cálculo dos honorários na encomenda pública. E note-se que um referencial assim não obriga o arquitecto a cobrar seja o que for. Obriga o comprador, porque fixa o preço-base e dá âncora à figura do preço anormalmente baixo. E ao obrigá-lo, protege-o, porque lhe dá fundamento escrito para recusar uma proposta insustentável sem ficar exposto a recurso.
É disciplina do Estado sobre si próprio e não tabela de classe, e é por isso que faz sentido ali e não faria sentido nenhum no mercado privado, onde seria papel que ninguém cumpriria. Convém também ser exacto quanto ao enquadramento europeu, porque é aí que esta conversa costuma morrer antes de começar.
O Tribunal de Justiça condenou a Alemanha em Julho de 2019 por manter tarifas mínimas e máximas obrigatórias para arquitectos e engenheiros, e condenou a Áustria poucas semanas depois em matéria próxima. Foram estes os dois casos, e não mais. A Alemanha manteve a HOAI, reformulando-a em 2021 de modo a transformar as antigas tabelas vinculativas em tabelas de orientação e é assim que ela continua a vigorar.
O acórdão não proibiu referenciais, proibiu tarifas obrigatórias desproporcionadas, e reconheceu expressamente que a qualidade do ambiente construído é razão imperiosa de interesse público. Itália, Croácia, Polónia e Roménia dispõem igualmente de instrumentos oficiais ou institucionais de apoio ao cálculo dos honorários, entre eles o Pravilnik croata e o regulamento polaco de 2021, ambos identificados no Relatório sobre Honorários na Encomenda Pública da Ordem dos Arquitectos.
Portugal foi dos poucos países europeus a revogar integralmente o seu referencial sem colocar outro no lugar. Sem esse referencial, o artigo 47.º do Código dos Contratos Públicos tende a perpetuar uma espiral descendente, porque o preço-base de amanhã é calculado sobre a adjudicação deprimida de hoje.
Peço, em segundo lugar, o fim da adjudicação por preço nos serviços de concepção, porque quando o preço é o factor predominante do critério, e na maioria dos casos o único aspecto do contrato verdadeiramente aberto à concorrência, já não se está a comprar projecto, está-se a leiloar risco. E peço, por fim, que a simplificação venha acompanhada de um reequilíbrio de responsabilidades, porque quem assume o risco técnico tem de ter meios, prazo e remuneração para o gerir.
Nenhum destes pedidos é extravagante, e nenhum deles exige do país mais do que aquilo que ele já reconhece lá fora. Em Abril deste ano Eduardo Souto de Moura recebeu a Medalha de Ouro da União Internacional dos Arquitectos, quinze anos depois de Álvaro Siza.
A Ordem aproveitou o anúncio para pedir ao país que usasse o momento para reflectir sobre as condições de exercício da profissão. Vale a pena reter o contraste. Somos internacionalmente reconhecidos por aquilo que, cá dentro, remuneramos abaixo de tudo o que nos rodeia.
Mas falta o essencial, e é aquilo que nenhuma das três medidas alcança. Portugal não tem arquitectos a mais, tem encomenda a menos e tem encomenda sem rumo. Enquanto o país não decidir que quer reabilitar o que está de pé, requalificar os bairros que construiu à pressa e produzir habitação pública com continuidade e não aos solavancos de cada ciclo, tudo o resto é administração da escassez.
Souto de Moura tem defendido a criação de um Serviço Nacional de Habitação e tem dito, com inteira razão, que a falta de casas em Portugal é sobretudo um problema de boa vontade. Não é uma bandeira de arquitectos. É a única coisa capaz de dar destino ao trabalho de uma geração inteira, e de tornar cumprível qualquer regra que se venha a escrever.
Boa vontade, e um mínimo de clareza sobre o que se está a comprar quando se compra um projecto. O mundo novo da construção será inevitavelmente mais digital, mais industrializado e mais eficiente, e nada disso me preocupa. O que me preocupa é que, na pressa de construir mais, se conclua que a parte pensada é a parte dispensável.
Que se fixe em 1,99% o preço daquilo que uma família irá habitar durante quarenta anos e uma cidade durante muito mais. E que continuemos a formar gente, ano após ano, para um país que ainda não decidiu o que quer construir. A pergunta que fica, e que devia incomodar muito mais gente do que incomoda, é a de saber para que país os estamos a formar. Porque esse país, para ser verdadeiramente admirável, continuará a precisar de pensamento antes de precisar de betão.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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