OPINIÃO: O oceano é “pau para toda a obra”?
Por Catarina Abril
Quando não sabemos como resolver um problema, há sempre quem apareça com uma tecnologia que promete resolvê-lo por nós. E, aparentemente, quanto maior o problema, mais grandiosa tem de ser a solução tecnológica. Não surpreende, por isso, que a crise climática esteja a alimentar algumas das propostas tecnológicas mais ambiciosas – e mais especulativas – dos nossos tempos.
É aqui que surge a geoengenharia: um conjunto de propostas que procuram intervir deliberadamente nos sistemas naturais da Terra para tentar combater as alterações climáticas. Algumas destas propostas parecem saídas diretamente de um filme de ficção científica, ao estilo do filme Snowpiercer, em que uma tentativa de travar o aquecimento global através da geoengenharia acaba, com algum azar, por congelar o planeta inteiro.
A realidade está longe de ser tão dramática, mas a lógica é curiosamente familiar: perante um problema que criámos, procurar uma tecnologia suficientemente ambiciosa para o corrigir, sem termos necessariamente de mudar aquilo que o causou. Há quem proponha, por exemplo, fertilizar artificialmente o oceano para estimular organismos que absorvam carbono, ou alterar a química da água do mar para aumentar a sua capacidade de retirar CO₂ da atmosfera. Apesar de parecerem ideias de ficção, são propostas reais que estão a ser investigadas e discutidas como potenciais ferramentas de resposta à crise climática.
E, mais uma vez, o oceano aparece como um dos principais palcos para estas ideias mirabolantes. Há uma certa conveniência em procurar no mar este tipo de soluções: é vasto, remoto e está, literalmente, longe da vista. Uma intervenção que acontece no meio do oceano não tem a mesma visibilidade que uma intervenção em terra, e os seus efeitos podem ser muito mais difíceis de acompanhar e compreender. O mar corre assim o risco de ser tratado como um enorme laboratório onde podemos testar soluções à escala planetária sem que a maioria das pessoas consiga sequer ver o que está a acontecer.
Mas talvez devêssemos começar por uma pergunta mais básica: depois de tantas vezes termos aprendido, da pior forma, que interferir nos sistemas naturais pode ter consequências que não conseguimos prever ou controlar, queremos mesmo continuar a brincar aos deuses com o funcionamento do planeta? A questão não é apenas saber se determinada tecnologia é eficaz ou viável. É também perceber que lugar queremos dar a estas soluções na resposta às alterações climáticas, e que recursos estamos dispostos a desviar para as tornar possíveis.
Porque estas promessas desviam atenção, investimento e capital político daquilo que continua a ser a resposta mais fundamental à crise climática: reduzir as emissões. Enquanto discutimos formas cada vez mais sofisticadas de retirar carbono da atmosfera ou alterar processos naturais para compensar os efeitos das nossas emissões, continuamos a adiar a conversa mais incómoda: é necessário reduzir aquilo que estamos a emitir em primeiro lugar. Não precisamos de uma tecnologia que nos permita continuar a fazer “tudo como antes”. Precisamos de deixar de tratar a tecnologia como uma forma de evitar as mudanças que sabemos serem necessárias.
A geoengenharia encaixa, por isso, demasiado bem numa narrativa em que não precisamos necessariamente de mudar a forma como produzimos energia, nos deslocamos ou consumimos. Precisamos apenas de encontrar uma tecnologia suficientemente sofisticada para compensar os efeitos dessas escolhas. É uma promessa particularmente conveniente porque transforma uma questão profundamente política e económica numa questão aparentemente técnica: como podemos resolver isto sem ter de mudar praticamente nada?
E é aqui que o oceano volta a entrar nesta história. Já lhe pedimos que seja fonte de alimento, espaço para infraestruturas, fornecedor de recursos, reservatório de carbono e peça fundamental da transição energética. Agora, perante a dificuldade em reduzir as emissões à velocidade necessária, voltamos a olhar para o mar e perguntamos: “e se o oceano também resolvesse isto?”.
Mas a verdade é que há um limite para aquilo que podemos continuar a pedir ao oceano. O mar não é uma tela em branco onde podemos depositar todas as soluções que ainda não conseguimos implementar em terra. É um sistema complexo, essencial à vida no planeta e já sujeito a uma enorme pressão. Antes de lhe atribuirmos mais uma missão, talvez devêssemos concentrar-nos em fazer aquilo que sabemos que é necessário: reduzir as emissões, proteger os ecossistemas e enfrentar as causas da crise climática, em vez de procurar constantemente novas formas de microgerir as suas consequências.
NOTA: Este é o oitavo artigo da “Coluna de Água”, um projeto da Sciaena – Associação de Ciências Marinhas e Cooperação e que publicará, durante um ano, 12 artigos, relacionados com justiça ambiental, direitos humanos, igualdade de género, participação democrática e literacia do oceano. Financiado pela União Europeia. As opiniões e pontos de vista aqui expressos são, no entanto, da exclusiva responsabilidade do(s) autor(es) e não refletem necessariamente os da União Europeia (UE) ou do Comité de Helsínquia dos Países Baixos (NHC). Nem a UE nem o NHC podem ser responsabilizados por eles.
Catarina Abril
Licenciada pela Universidade do Algarve em Biologia Marinha e Mestre em Biologia Marinha e Conservação pelo ISPA, é uma verdadeira “sharky”. O seu amor por tubarões valeu-lhe, em 2019, a bolsa Women in Shark Science da South African Shark Conservancy permitindo-lhe realizar o seu estágio em Hermanus, na África do Sul, onde desenvolveu o seu gosto pela comunicação e sensibilização. Atualmente lidera o trabalho em mineração do mar profundo, acompanhando de perto outros temas relacionados com o fundo do mar nomeadamente no ramo das pescas. Segue ainda o trabalho em Pescas no Nordeste Atlântico e integra as equipas de Pescas e de Clima da Sciaena.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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