Peixe de aquacultura e insetos desafiam jovens a repensar alimentação
CIÊNCIA
Pode um peixe criado em aquacultura ser tão seguro como outro pescado no mar? E estaremos preparados para aceitar insetos como fonte de proteína? Um novo projeto quer levar estas e outras perguntas às escolas e universidades portuguesas, usando a ciência para perceber — e eventualmente mudar — a forma como os jovens encaram duas fontes de alimentação que poderão ganhar peso no futuro.
Chama-se Food4Thought e pretende trabalhar diretamente com estudantes do ensino secundário e superior, a partir dos 16 anos, para perceber as suas ideias e preconceitos sobre aquacultura e insetos destinados à alimentação e confrontá-los com evidência científica.
Financiado pela Egas Moniz School of Health & Science e desenvolvido em parceria com o B2E – Blue Bioeconomy CoLAB e a Thunder Foods, o projeto parte da ideia de que estes dois setores deverão crescer significativamente durante a próxima década, mas continuam a enfrentar resistências por parte dos consumidores.
A questão torna-se relevante perante o aumento da procura mundial de proteína. Segundo os promotores, com a pesca de captura no limite, responder às necessidades alimentares futuras implicará recorrer a diferentes origens, incluindo aquacultura, pecuária e fontes alternativas de proteína.
«Com o aumento da população e da necessidade de proteína para consumo humano, todas as origens vão ter de crescer: aquacultura, pescas, produção pecuária e também os insetos», explica Elisabete Matos, responsável pelo Food4Thought.
Para a investigadora, a questão fundamental está na forma como esse crescimento será feito. «O que queremos é que cresça a produção sustentável, porque de outra forma teremos dificuldade em alimentar a população a longo prazo. Nunca poderemos depender de um só tipo de proteína, mas sim de uma variedade de soluções», acrescenta.
O projeto parte também da constatação de que aquacultura e insetos enfrentam tipos diferentes de resistência. No caso dos insetos, os promotores identificam uma barreira sobretudo emocional, associada à repulsa que o seu consumo ainda provoca em muitos consumidores. Na aquacultura, consideram que o problema está mais relacionado com informação desatualizada ou incorreta e com dúvidas sobre a segurança alimentar.
«No caso dos insetos, o que queremos é chamar a atenção para o facto de estarmos a tomar decisões emocionais e não racionais, e desmontar a questão do “nojo” com informação acessível», explica Elisabete Matos.
Já em relação ao peixe produzido em aquacultura, «o desafio é sobre as questões relacionadas com a segurança dos alimentos, o uso — ou o não uso — de antibióticos e hormonas, e outros mitos que deixam os consumidores desconfortáveis».
Os responsáveis pelo Food4Thought defendem que esta questão não se limita às escolhas individuais feitas no supermercado. Uma reduzida aceitação do peixe de aquacultura poderá condicionar o crescimento do setor e aumentar a pressão sobre os recursos pesqueiros selvagens.
Quanto aos insetos, apontam para o potencial de uma produção local, com elevado rendimento proteico e ligada aos princípios da economia circular, cuja viabilidade dependerá também da aceitação dos consumidores.
Em vez de começar por tentar convencer os estudantes, o Food4Thought quer primeiro ouvi-los. O projeto está organizado em três momentos: começa por avaliar aquilo que os jovens pensam sobre os dois temas; usa depois os resultados para construir uma ação educativa adaptada às dúvidas e perceções encontradas; e, numa terceira fase, volta a medir as atitudes para perceber se houve alterações.
«Não queremos apenas saber a opinião dos jovens. Queremos usar essa opinião para desenhar a intervenção e, depois de a implementarmos, quantificar a mudança de opinião», sublinha Elisabete Matos.
Apesar de reconhecer que se trata de «um projeto pequeno e com um orçamento modesto», a responsável explica que a ambição passa por criar algo que possa ultrapassar as instituições inicialmente envolvidas: «o nosso objetivo é que a intervenção possa depois ser aplicada por qualquer outra escola ou universidade interessada em explorar estes temas».
O trabalho de campo será realizado numa escola secundária e em duas instituições de Ensino Superior, envolvendo jovens a partir dos 16 anos.
No final, além dos dados recolhidos sobre perceções e eventual mudança de atitudes, deverá resultar do projeto um modelo pedagógico replicável, que ficará disponível para utilização por outras escolas e universidades.
Um dos parceiros, o B2E – Blue Bioeconomy CoLAB, criado em 2020 e sediado em Matosinhos, trabalha na ligação entre investigação e mercado no domínio da bioeconomia azul, incluindo a aquacultura e a valorização de recursos marinhos.
Já a Thunder Foods, empresa portuguesa fundada em 2021, trabalha numa das áreas que o Food4Thought quer colocar em discussão: produz proteína a partir de Tenebrio molitor, a chamada larva da farinha, destinada à alimentação humana e animal, aproveitando também o processo produtivo para obter fertilizantes orgânicos.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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