Andarmos debaixo do braço
OPINIÃO
Por Pedro Lemos
Um homem a passar com o jornal debaixo do braço. Final da manhã. Cruzaram-se numa rua, numa passadeira, e aquilo captou-lhe a atenção, um objeto tão comum, ele sabe-o, uma coisa corriqueira, do quotidiano, mas a força da imagem ficou, talvez por já ser incomum, poderia ser ele, mas hoje o mundo é diferente.
Nem sempre é fácil, há uma linha que se torna corrente, somos a soma de tanta coisa, vivemos titubeantes, hesitantes, quase uma manta de retalhos de desejos, de uma projeção qualquer: «será isto que eu sou?».
Os jornais sempre estiveram lá. São funda parte da sua identidade.
Há pouco tempo, havia descoberto uma fotografia de infância na qual o pai estava a ler um jornal, sentado no sofá, era Verão pelas roupas, e ele aparecia ao lado a espreitar. Teria não mais de três ou quatro anos; talvez estivesse a tentar perceber que objeto era; talvez lhe espantassem as cores, caras, o cheiro.
O espanto manteve-se quando o passou a entender. Às vezes, ao jantar, o pai começava as conversas assim:
«Hoje, li no jornal»
E aquilo fazia-o pensar: como era possível saber-se tanto, como é que, numa só coisa, se reuniria tanta sabedoria, que objeto mágico era esse, tão palpável, mas tão sagrado ao mesmo tempo?
Então, decidiu passar a lê-lo.
Comprar o jornal era um acontecimento: andava com ele de um lado para o outro, lia-o em casa, na rua, no carro, mostrava-o com orgulho se lho pedissem, guardava-o na mochila.
Noutros dias, o café perto de casa tornava-se refúgio – percorria-lhe as páginas, os nomes passaram a soar a família.
Na escola, tentava mascarar o mau jeito e as insipientes fintas com coisas como:
«Hoje, li no jornal que o jogador x vai para o clube y»
Ou:
«O clube y ganhou ao clube z com um golaço do x»
Hoje, já não anda com ele, logo agora, que a sua vida são os jornais, e esse é um paradoxo que não lhe sai da cabeça, no qual tem vindo a pensar desde aquela vez, nessa passadeira, era final da manhã, e uma mera imagem o fez lembrar-se como é possível andarmos connosco mesmos debaixo do braço.
E passearmos.
Pedro Lemos
Poucas coisas me dão mais gozo na vida do que sentar-me frente a frente com uma pessoa, olhar-lhe nos olhos, escutá-la e ouvir a sua história para depois a verter num texto. Acho que isso diz tudo sobre como vejo e encaro isto do jornalismo, onde ando há quase 10 anos. Sou o Pedro.
SUL INFORMAÇÃO

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