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Rádio RIO Odemira

Não murcharão – nem eles passarão

OPINIÃO

Não murcharão – nem eles passarão
Por Pedro Lemos

Senti-me feliz como não acontecia há dias, finalmente a vergonha tinha mudado de lado, e aqueles, sim, eram gente de que me orgulhava, não quero dizer «dos meus» porque nunca gostei de dividir a vida entre preto e branco, mas, por vocês, talvez até abra uma exceção.

Não lhes sei os nomes, mas fiquei com vontade de lhos perguntar, mesmo que haja este ecrã a separar-nos.

Contei três: dois mais novos – um homem e uma mulher -, outro mais velho, este de olhos esbugalhados, o queixo levemente caído, as lágrimas nos olhos; empunhava um telemóvel, não um bastão, e imaginei-o talvez a telefonar a um filho ou a um neto e uma única palavra bastava:

«Desculpa»

Andei angustiado, chateado, envergonhado, preocupado: não concebia – não concebo – que aquela gente partilhasse tanta coisa comigo: muitos a nacionalidade, alguns talvez até o nome. Não, nunca nos poderíamos sentar à mesma mesa, falar do que somos, daquela coisa meio inexplicável a que se chama “identidade”, mas que, enfim, nos molda.

Somos portugueses, mas, acima de tudo, somos pessoas. A resposta nunca pode estar no cassetete.

Cobardes, pensei na primeira manhã em que acordei e o telemóvel me anunciou o que tinha acontecido. Repetiu-se uma segunda vez. E uma terceira. Protestei muito, enchi a paciência dos mais próximos que me rodeiam de lamentos, de palavras de ordem, certamente também de alguns insultos.

Tive muita vergonha, às vezes até me faltaram as palavras para conseguir descrever tudo o que me assolava. Podia ser eu. Podia ser eu. Conheço quem lá tenha estado – tanto a protestar como a trabalhar – e tive medo. Pensei neles.

Depois, aconteceu o final da noite de ontem e todo eu voltei a ser alegria. Eram cravos. Contei três – haveria talvez mais.

Aqueles, sim, são «dos meus», gente que resiste, que também terá andado triste por ver colegas, também agentes da PSP, a avançar sobre gente pacífica, instrumentalizados, marionetas nas mãos de quem nos envergonha sempre que fala.

E lembrei-me de ti, que já cá não estás, Celeste Caeiro, tu que até tinhas o mesmo nome da minha avó, que, não muito longe dali, andaste a distribuir cravos há 52 anos.

Nunca murcharão – nem eles passarão.

Pedro Lemos

Poucas coisas me dão mais gozo na vida do que sentar-me frente a frente com uma pessoa, olhar-lhe nos olhos, escutá-la e ouvir a sua história para depois a verter num texto. Acho que isso diz tudo sobre como vejo e encaro isto do jornalismo, onde ando há quase 10 anos. Sou o Pedro.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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